Como filmes e programas de TV moldam nossa visão sobre o álcool
Dos amigos que bebem Cosmopolitan em Sex and the City ao taciturno detetive que bebe uísque antes de um grande caso, o álcool é uma presença constante em nossos programas e filmes favoritos. Mesmo quando essas representações não são realistas – como derrubar um chefe do crime depois de vários drinques – nós nos acostumamos a vê-las. Mas que efeito isso tem sobre nós? E como os filmes retratam o álcool e o alcoolismo? Vamos dar uma olhada mais de perto.
A influência do álcool no público
Uma grande preocupação é como o álcool nos filmes afeta os jovens espectadores. A pesquisa mostra uma ligação clara: quanto mais álcool os adolescentes veem na tela, maior é a probabilidade de eles beberem.
Um estudo da Universidade de Dartmouth descobriu que os adolescentes que assistiam aos filmes com maior teor de álcool tinham duas vezes mais probabilidade de começar a beber e 63% mais probabilidade de beber em excesso. Um estudo semelhante na América Latina mostrou que a exposição ao álcool em filmes estava ligada à experimentação de álcool, ao consumo atual e ao consumo excessivo de álcool entre adolescentes mexicanos. Na Argentina, o efeito foi mais brando, mas ainda presente.
Não são apenas os adolescentes – os adultos também são influenciados. Com o tempo, os coquetéis no almoço, o vinho no jantar e o “bêbado engraçado” nas comédias começam a parecer normais. Sem perceber, muitas vezes imitamos o que vemos.
Maneiras comuns de o álcool aparecer na tela
1. Álcool como elemento de fundo
Uma maneira sutil pela qual o álcool entra em nossas mentes é aparecendo constantemente em segundo plano. Quando cada jantar, encontro ou reunião inclui bebidas, cria-se a ilusão de que todos estão sempre bebendo.
- Cheers (1982): Situado em um bar, o espetáculo gira em torno dos bebedores, mas também traz um personagem principal abstêmio, mostrando que nem todo mundo bebe.
- Está sempre ensolarado na Filadélfia (2005): Esta sitcom centrada em bares mostra personagens entrando em situações piores a cada temporada, destacando as desvantagens do consumo excessivo de álcool.
- Coyote Ugly (2000): Aqui, beber - especialmente o consumo excessivo de álcool - é retratado como divertido e normal, mesmo para os bartenders.
Na realidade, os atores não estão realmente bebendo, e o uso de álcool na vida real raramente se integra tão bem à vida diária.
2. Álcool como lubrificante social
Muitos programas e filmes apresentam o álcool como essencial para a socialização. Personagens tímidos tornam-se extrovertidos depois de alguns drinques, e os eventos sociais sempre incluem álcool.
- Sex and the City (1998): Os personagens bebem frequentemente Cosmopolitans. Curiosamente, uma das estrelas, Kristin Davis, falou abertamente sobre sua própria recuperação do alcoolismo.
- How I Met Your Mother (2005): Os amigos se encontram constantemente em um bar, fazendo com que beber à noite pareça uma parte normal da vida social.
Mas pesquisas sugerem que o álcool não é a cola social que parece ser. Um estudo descobriu que pessoas que beberam antes de um evento social virtual passaram mais tempo olhando para si mesmas do que para os outros e relataram sentir-se pior depois.
3. O álcool como catalisador romântico
Os filmes muitas vezes sugerem que o álcool é necessário para o romance.
- Casablanca (1942): Cenas memoráveis se desenrolam em um bar, unindo amor e saudade à bebida.
- Crazy, Stupid, Love (2011): O personagem principal usa álcool para aumentar a confiança e melhorar sua vida romântica.
Na realidade, o álcool pode diminuir a libido e tem sido associado à violência sexual. O verdadeiro romance não depende de bebida.
4. O tropo do “bêbado engraçado”
Alguns filmes transformam o alcoolismo em comédia com o personagem “bêbado engraçado” – alguém cujas travessuras são usadas para rir.
- Arthur (1981): O personagem principal é um bebedor charmoso, mas problemático, que chega até a dirigir bêbado - algo que não é engraçado na vida real.
- Animal House (1978): Este filme celebra o consumo imprudente e o caos, minimizando o comportamento destrutivo.
Na verdade, o álcool muitas vezes faz com que as pessoas percam momentos genuínos e significativos.
Retratos realistas do alcoolismo
Nem todos os filmes glamorizam a bebida. Alguns mostram as verdadeiras lutas do vício.
- Flight (2012): Retrata um alcoólatra de alto desempenho cuja vida desmorona, mostrando como o vício pode aumentar repentinamente.
- Walk the Line (2005): Segue a batalha de Johnny Cash contra o vício e como isso ameaçou sua carreira e relacionamentos.
- A Maravilhosa Sra. Maisel (2017): Inicialmente usa o álcool como muleta para a comédia, mas a personagem principal acaba percebendo que fica melhor sem ele.
Dicas para ficar com os pés no chão
Veja como curtir filmes sem permitir que representações de álcool afetem seus hábitos:
- Lembre-se que é ficção. Os atores não estão realmente bebendo e as cenas são criadas para entretenimento.
- Mude sua visualização. Experimente programas ou documentários sobre a natureza para equilibrar o que você assiste.
- Assista a documentários sobre vício. Filmes como Recovery Boys ou Addicted: America’s Opioid Crisis oferecem perspectivas da vida real.
- Converse com seus filhos. Discuta a diferença entre representações cinematográficas e riscos da vida real.
Considerações Finais
Estar atento ao que assistimos pode nos ajudar a separar a ficção da realidade. Você não precisa evitar shows com bebida, mas lembre-se de que o que você vê na tela não é a vida real. Explore diferentes gêneros e deixe seus gostos evoluirem – há todo um mundo de ótimo conteúdo e atividades sóbrias para desfrutar.