Que palavras são importantes quando se fala sobre vício?
Frases comuns como “alcoólico” e “abuso de álcool” são frequentemente usadas quando se discute o vício do álcool, mas podem ser estigmatizantes. Em vez disso, podemos usar uma linguagem que prioriza a pessoa, como “pessoa com transtorno por uso de álcool” e “uso indevido de álcool”, para reduzir o estigma e capacitar aqueles que podem se beneficiar do apoio para construir uma relação mais saudável com o álcool. As palavras são ferramentas poderosas – podem causar danos ou abrir caminhos para a cura.
Na premiada série de TV Breaking Bad, há uma cena memorável em que Jesse Pinkman, um traficante que luta contra o vício, é duramente criticado por Walter White. Walter, oprimido por suas próprias lutas após o diagnóstico de câncer, chama Jesse de "viciado" - uma palavra que o fere visivelmente. A expressão de dor de Jesse mostra o quão profundamente uma única palavra pode afetar alguém.
Este momento destaca como a linguagem pode prejudicar quem lida com o vício, ressaltando a importância de escolhermos cuidadosamente as palavras. Ao discutir o vício do álcool, nossas palavras têm o poder de prejudicar ou curar, tornando essencial a comunicação compassiva. Vamos explorar o transtorno por uso de álcool (AUD) e aprender quais termos usar e evitar para ajudar a reduzir o estigma.
Compreendendo o transtorno por uso de álcool (AUD)
O transtorno por uso de álcool (AUD) é muitas vezes mal interpretado como um simples mau hábito ou falta de força de vontade, mas na verdade é uma condição médica reconhecida no DSM-V – o manual padrão usado por profissionais de saúde mental. O AUD é caracterizado por uma capacidade prejudicada de interromper ou controlar o uso de álcool, apesar dos efeitos negativos na saúde física, mental ou social.
Com o tempo, uma pessoa pode tornar-se física e neurologicamente dependente do álcool. O álcool afeta o sistema de recompensa do cérebro, associando o consumo ao prazer e dificultando o abandono. É por isso que o tratamento e o apoio são tão importantes para a recuperação. Vejamos como o estigma pode impactar esse processo.
As palavras são importantes: mudando para uma linguagem desestigmatizante
O estigma em torno do AUD pode incluir crenças falsas – como pensar que uma pessoa com AUD é perigosa, irresponsável ou incapaz de administrar o tratamento. Essas ideias geralmente vêm de visões desatualizadas de que o AUD é uma falha moral e não uma condição tratável.
Podemos reduzir o estigma usando uma linguagem que prioriza a pessoa. Essa abordagem usa um tom neutro e separa a pessoa de seu diagnóstico. Por exemplo, dizemos que alguém “tem câncer”, e não que “seja canceroso”. Da mesma forma, deveríamos dizer que uma pessoa “tem AUD”, e não que ela “é alcoólatra”. A linguagem que prioriza a pessoa ajuda a preservar a dignidade de uma pessoa, evitando rótulos que a definam pela sua condição.
Voltando ao exemplo de Breaking Bad, depois que Walt chama Jesse de “viciado”, Jesse reage defensivamente, aumentando o conflito. A linguagem estigmatizante pode fazer com que as pessoas com AUD se sintam atacadas ou incompreendidas, levando a relacionamentos tensos. Vamos aprender como colocar em prática uma linguagem livre de estigma.
Termos de uso
As palavras são importantes, então vamos usá-las para apoiar mudanças positivas. Embora alguns termos desatualizados apareçam em pesquisas ou recursos, é importante usar uma linguagem respeitosa em conversas pessoais. Aqui estão alguns termos úteis para usar:
- Linguagem centrada na pessoa: Use “pessoa com AUD” ou “pessoa em recuperação” para separar o indivíduo de sua condição.
- Termos clinicamente precisos: "Transtorno por uso de álcool" é um termo clínico neutro - melhor do que rótulos como "alcoólatra" ou "viciado".
- Linguagem fortalecedora: reconheça a força necessária para enfrentar o AUD com frases como “em recuperação” ou “trabalhando para um relacionamento mais saudável com o álcool”.
- Tom sem julgamento: Mesmo termos neutros como “recaída” ou “dependência” podem soar duros se usados com julgamento. Considere-os como desafios a serem superados, e não como fracassos.
Termos a evitar
Como disse a escritora Jessamyn West: “Um osso quebrado pode curar, mas a ferida que uma palavra abre pode infeccionar para sempre”. A escolha consciente de palavras nos ajuda a curar, em vez de prejudicar. Aqui estão os termos a evitar:
- Rótulos estigmatizantes: Evite “viciado”, “bêbado”, “alcoólatra” ou “abusador”. Isso sugere que a pessoa é o problema, em vez de ter um problema.
- Palavras com conotações negativas: Termos como “limpo/sujo”, “defeito de caráter” ou “fracasso” implicam que alguém é “menos que” por causa do AUD.
- Termos imprecisos ou enganosos: “Abuso de álcool” ou “hábito” minimizam os reais aspectos físicos e psicológicos do AUD.
- Linguagem condescendente: palavras como “viciado”, “bêbado” ou “bebedor” são ofensivas e reduzem a pessoa à sua condição.
Você pode ver termos como “alcoólatra” ou “abuso de álcool” usados em pesquisas ou online – isso nem sempre significa que o orador está sendo ofensivo. O segredo é evitar usar esses rótulos diretamente com alguém. Dizer “Você é um alcoólatra” é muito diferente de discutir “tipos de alcoólatras” num contexto de pesquisa.
O poder das palavras para desmantelar o estigma do vício
O estigma é uma grande barreira ao tratamento. O medo do julgamento pode impedir que as pessoas com AUD procurem ajuda. Sem apoio, o consumo excessivo e contínuo pode levar a sérios problemas de saúde e até ser fatal – tornando o tratamento crucial.
A desinformação e os estereótipos também podem levar a emoções negativas como pena, medo ou raiva, afastando as pessoas das pessoas com AUD. Ter amigos e familiares para apoiar é muitas vezes fundamental para a recuperação. Ao escolhermos cuidadosamente as nossas palavras, podemos ajudar a reduzir o estigma e os seus efeitos nocivos.
Além das palavras intencionais: comunicação eficaz
A comunicação eficaz envolve mais do que apenas a escolha de palavras. Para ter conversas de apoio sobre o AUD, tente estas estratégias:
- Prepare o cenário: escolha um bom horário e local para conversar, livre de distrações, para mostrar que você se importa.
- Esteja atento ao seu tom: evite soar acusatório. Em vez de dizer “Você está bebendo demais”, compartilhe suas preocupações sobre como o álcool está afetando a saúde deles.
- Ouça com empatia: Pratique a escuta ativa – confirme o que ouve e mantenha a mente aberta.
- Continue aprendendo: a linguagem evolui. Mantenha-se aberto a novas informações e melhores formas de comunicar sobre o AUD.
A escolha cuidadosa de palavras é apenas o começo. O uso dessas estratégias pode ajudar a combater o estigma em torno do AUD.
A palavra final
Ao falar sobre AUD, nossas palavras podem machucar ou ajudar. Mesmo termos comumente usados como “alcoólatra” ou “vício” podem contribuir para o estigma. O estigma pode impedir as pessoas de procurar tratamento e isolá-las do apoio. Se não for tratado, o AUD pode prejudicar gravemente a saúde e até ser fatal. Algo tão simples como as palavras que escolhemos pode fazer uma grande diferença – então vamos escolhê-las com sabedoria!